O mito do pássaro
Divindade alada pré-dinástica | Vitória de Samotrácia
Por quê BemTeVi?
Na apresentação do Estudio BemTeVi, falei do encontro do meu trabalho com a imagem do pássaro: o esforço de "perseguir" um mito que sempre me habitou, mesmo que tenha levado alguns anos para se tornar consciente.
O nome BemTeVi emergiu em minha mente quando estava grávida da minha segunda filha, Anita. Eu estava, naquela época, repensando meu fazer, e percebendo com mais clareza minha relação íntima com a memória, com o tempo. A palavra veio, do nada. Não entendi. Mas deixei. Ela continuou ressoando. Ecoando, e aos poucos, passou a vibrar com força e ritmo, como se sempre a tivesse escutado.
Joseph Campbell dizia que "a mitologia é a canção do universo, a música das esferas, música que nós dançamos mesmo quando não somos capazes de reconhecer a melodia." Acho que foi assim com a imagem do bem-te-vi, ou o mito do pássaro. Dancei com ele. E acho que consegui ir em direção a esta imagem, deixando-a viver e se fortalecer em mim, sem questionar, sem indagar racionalmente, exatamente por estar grávida - neste estado glorioso de gestação da vida, de abertura para o universo, quando estamos mais despertos, atentos e conectados.
Também Campbell dizia: "O mito é uma "máscara de Deus", uma metáfora daquilo que repousa por trás do mundo visível."
Compartilho aqui o mito do pássaro, uma das metáforas que me inspira e impulsiona, e que talvez algum de vocês já encontrou, ou poderá encontrar, ao longo da caminhada.
O mito do pássaro *
O vôo dos pássaros deve ter excitado a nossa imaginação desde que os vimos subir aos céus. Os pássaros parecem não se reger pelas mesmas leis da natureza que nós. Com a leveza do próprio pensamento, desafiam a gravidade, estando tão a vontade no ar como na terra. Alguns podem até nadar debaixo da água. Os pássaros formam um elo entre o céu e a terra, entre consciente e inconsciente, e é quase universalmente considerado um símbolo da alma ou anima, como a respiração do mundo ou como a alma do mundo escondida na matéria.
(...) No nosso desejo de liberdade ilimitada, identificamo-nos com o vôo dos pássaros. Na nossa imaginação, transcendemos o mundo dos comuns, abandonando a terra e o peso do corpo. As asas sustêm-nos. Platão declarou: "A função da asa é levar aquilo que é pesado elevando-o à região acima, onde habitam os deuses." Com asas, podemos observar simultaneamente as coisas da perspectiva terrena e da perspectiva celestial. A intuição e a inspiração parecem surgir inesperadamente e com asas, vindas do nada, como um sinal de qualquer ato criativo.
(...) É também o seu canto que faz com que os pássaros sejam uma espécie tão notável. As suas vozes não são apenas as vozes do espírito; são também as vozes dos instintos que sentimos profundamente no corpo, o som do sangue e dos ossos, tecidos e nervos - os instintos dos animais. O canto dos pássaros desperta-nos de manhã e chama-nos às nossas vidas. Os pássaros conhecem o seu caminho e lêem os sinais das estações. Eles sabem quando é tempo de se separarem e partirem na longa viagem seguinte. Possuindo aquilo que parece ser uma bússula e um sextante ao mesmo tempo, eles orientam-se com indicações de cima e de baixo. Eles seguem o sol, a lua e as estrelas e, quando o céu está encoberto, seguem o campo magnético da terra à medida que cruzam continentes e oceanos.
Algures, profundamente em nosso interior, os nossos instintos guiam-nos. Sabemos o que é verdadeiro. Respondemos a isso com o nosso próprio canto. "A canção é existência.", disse Rilke. Nós encarnamos o espírito através da canção. Neste diálogo de ascender e descer, de escutar e expressar, encontramos a nossa alma de pássaro que nos guia na nossa viagem.
(* trechos extraídos de "O livro dos símbolos - The archive for research in archetypal symbolism", Taschen)